12 junho, 2018

Os Bicho

uma vez preto velho me disse:
- ocês tem que saber vê os bicho
saber vê, pra poder aprender com eles
os bicho são tudo simples
num precisa de muito não 
no frio, tudo se aninham,
nem da falta de pano por cima, não
os bicho sabe viver, sabe agradecer
até as abelha sabe agradecer o criadô
elas num desiste não, sai sambando
de frô em frô pra alimentar a família
se ocês imitasse os bicho
ia saber viver mió
óh pro cês vê
os passarin acorda cantando
e mesmo depois de um dia longo
de trabai, torna cantá travez pra poder dormí. 
os bicho sabe sentir
sabe roçar no mato pra fazê contato com a terra
os bicho sente tudo que é bom, 
mas também sente o que é de ruim
os bicho sente, os bicho vive.
ocês tem que ser humilde e saber aprender com os bicho
ocês tem que saber aprender a cantar pra terra
é só assim pra ela curar, pra ela devolver a vida
tem que rezar pras pranta e pras frô
tem que agradecer pela comida que cês come
tem que saber entender que a alma dos vivo, é a fala,
então, tem que cuidar com o que fala,
porque a alma tem que ser boa, tem que ser bonita
num parece, mas os bicho se dói pra sempre quando um deles vai
por isso eles anda junto, é por amor
que mistura proteção e parceria
os bicho são tudo sabido, são besta, não.
ocês tem que aprender com os bicho


11 junho, 2018

RETRATO DE UMA PSICODELIA [3]

O dia que soube que eu existia, foi o dia em que eu morri. Parecia um pesadelo do qual eu não conseguia acordar. 4 minutos eu levei até morrer. 4 minutos, 4 minutos, 4 minutos. 4 minutos para entender quanto vale cada segundo dessa vida, 4 minutos para entender que nós, enquanto seres humanos, não valemos nada, 4 longos minutos para entender que morremos sozinhos, morremos sozinhos, sozinhos.

Do que podemos falar? me deixe saber para poder me encaixar, estou tomando nota. É permitido falar de amor ? - Não, amor, não, vai estragar o que é tão bom. É permitido falar de saudade? - Depende, se você falar demais vai parecer carência, então tente se policiar. É permitido falar de sexo? - Pode, a qualquer hora, mas não prolongue muito, vão te achar meio ninfo. É permitido falar de dor? - Não, a dor alheia cansa a outra pessoa, pode pesar o dia, evite esse tópico, guarde para si. E medo, é permitido falar do medo ? - Jamais, o medo contamina, pode vir a ser tóxico, quando tiver medo, sorria, será melhor. E o que devo sentir? - Não sinta, é melhor, até porque as pessoas não terão tempo para sensações e sentimentos. Tempo é dinheiro, foque no prazer mesmo.

Eu quero falar da dor que dá em morrer sozinho, eu quero falar da língua que parece dar nó dentro da garganta, como uma espada atravessando carne de animal, eu quero falar do estômago que parece revirar como em uma tempestade, eu quero falar do medo dessa sensação de cair e não ter onde ser aparado, quero falar de sangue, quero falar da faca que rasga o peito. Quero falar dessa dor que empurra as costelas, que comprime os pulmões, da dor que não deixa respirar. Eu quero falar do que é sujo, quero falar do que dói, eu quero falar do que eu sinto, eu quero te chamar de covarde, um covarde.

Cá estão todos vocês, bestas, anestesiados, dopados, ocupados demais com seus afazeres, com sua máscaras, seus sorrisos amarelos. Eu estou cansada de vocês, e dos seus “o que houve?” e nenhum “como você está hoje?”. Nessa era, se é que houve era diferente, ninguém quer saber da sua dor, até porque a dor afasta as pessoas e temos que respeitar os espaços, - respeite o espaço alheio. 4 minutos, 4 minutos, eu levei para entender. Entender que esse respeito todo não passa de mais uma ferramenta para nos desconectar, para nos afastar do que importa, O CONTATO. 4 minutos eu levei para morrer, para entender, que respeitar certos espaços é só mais um instrumento de manipulação do ego, desse individualismo embriagado, que serve para construir muros e barreiras entre o sentir e o viver.

- Com o que sua alma se parece? Qual a forma, a cor, o som, o que a compõe? Com o que você a preencheu? Qual a verdade do seu ''eu''? Do que seres humanos são feitos, além de carne e ossos?
Na alquimia se tem a receita da composição de um corpo humano adulto; é feito de água, carbono, amônia, cal, fósforo, sais, nitrogênio, fluor, ferro, silício e outros elementos químicos... E a composição do mundo, é feita por quatro elementos base; água, fogo, terra, ar, dividido em quatro qualidades; úmido, seco, frio e quente. Pode-se transmutar coisas, criar seres artificiais, mas o que vem com sua alma, como é fabricada a alma? Como você enxerga o mundo, com os olhos da alma, ou os olhos cegos da face? -

Depois de muitas batalhas perdidas durante a vida, depois de perder tudo de raro pra você, mesmo depois da doença, da ofensa, da traição, da morte, do trabalho, da exaustão e cansaço do seu corpo e da sua mente, mesmo depois de todos os infortúnios que a vida continua a te proporcionar, se mesmo depois de tudo, você tiver algo que não consegue abandonar, mesmo que o peso da lida venha com fervor, se mesmo assim você tiver algo do qual não consegue abandonar, então é essa a sua verdade, é essa a sua essência, que ninguém e nada poderá tirar de você, é disso que sua alma é composta, da sua própria verdade.

4 minutos eu levei para morrer, 4 minutos eu levei para entender o que importa, para entender qual a minha verdade. Sentir, quero sentir, quero sentir. Quero sentir dor, raiva, ódio, amor, saudade, eu quero ser livre para sentir, e ao meu lado, não quero vocês, nenhum de vocês, covardes, medrosos, medrosos, medrosos, medrosos, medrosos, medrosos. Quero aqueles que como fraturas expostas, sangram, quero aqueles que mergulham, aqueles de almas oceânicas, aqueles que tem intensidade, que sabem quanto vale 4 minutos da vida, aqueles que não deixam passar nada por medo. Quero aqueles que sentem, quero aqueles que já morreram sozinhos, eu quero aqueles que sabem sentir, quero aqueles que não temem em enxergar o outro, quero aqueles que sabem atravessar, quero aqueles que sabem que existem além do que é material, quero aqueles que entendem quanto tempo vale 4 minutos da vida.

09 junho, 2018

19-04-2018


(um quarto em Santa Teresa - Rio de Janeiro)

Em seu quarto, um mundo
como se fosse uma boa composição
de um bom cenário de um bom diretor de arte
assim, no vício linguístico do bom adjetivo.
E como se fosse a primeira vez, o primeiro amor,
ele, cheio de cuidado, gentileza e suavidade
de coração grande, disposto a dar a outra face
de compasso e passo calmo.
como numa síndrome dos bons poetas cariocas,
carrega lirismo na alma
ele não sabe, mas dentro dele há caldo,
panelada quente, cheia de tempero
que só no Brasil tem
ele, o gringo mais brasileiro que há por aí,
seus olhos eram como máquina de fotografia
e com seus ouvidos apurados
permanecia atento as novas palavras que aprendia
ela, sonolenta, atravessando a noite
 o esperando, esperando.
como num longo romance francês
o olhar era demorado, cheio de poesia nos pulsares
que tardou ao toque físico
pois a transa começou nas tramas
de dois aventureiros descuidados 
saracotiando pelas ruas da cidade maravilhosa.
eles que tanto trocaram
sem precisar dizer, sabiam se conhecer
 só tiveram dois encontros nessa vida
duas noites, em tempo e estados diferentes
nordeste e sudeste
Viajantes... 
ela mais na fantasia
ele, pelo globo, filosofia e poesia
Em seu quarto
com a janela e corpo aberto
a visão apontava para o belo céu escuro
que aos poucos se tornava claro
em instantes eternizados
 amanhecia 

era o dia que floria 

...

J'ai besoin de romance
Ton feu nourri de questions
Sur le pourquoi du comment,
De mon coeur et ses raisons.
Je ne manque pas
De bonnes raisons pour t'aimer


04 junho, 2018

ele, regente do revoar das aves. ela, passarinho.


um conto ou algo assim...

Ele tem nome de filósofo, ela tem nome de cidade. Ambos carregam em seus nomes, fortes influências de suas origens. Ele, que num lócus de lógica e arte, busca a realidade através de experiências, moço sabido e comprometido. Ela, em seu nome tem origem ariana ou sânscrito, tem como essência terra e espaço, deriva de costas marítimas, seu nome é pronome próprio dos montes de marte, o planeta, moça aluada e sistemática. Ele, homem preto, feiticeiro, misterioso, manipulador de ervas e folhas, provedor do alimento, tem sol em peixes, tem sol na pele, coração e no olhar, dono de uma divindade cultural, leva a vida num dinamismo que às vezes é de preguiça, mas sempre cheio de vida e otimismo, carrega em seus ombros um escudo, também seu arco e flecha de caçador, seus elementos são de terra e água, saúda em iorubá, ele veio de lá, "okê arô", tem malícia e bondade no gingar. Ela, filha da lua, bruxa, mestiça, sua fonte é o sol. Cigana, faz casa onde chegar, filha da rua, faz magia no seu bailar, tem saia que roda, cativa, ela é intuitiva, mística, seu mistério está no trançar dos pés que não param de dançar, movida por paixão, faz a carne vibrar, a liberdade é sua pulsão, sensível, intensa, elétrica, tem magnetismo no olhar, seus elementos são terra, água e ar, vive com a cabeça a pensar. Ele, com suas raízes, segue fixo no seu caminho, devoto, contemplador, servil, mas transcende, pois sua origem é de outro lugar, um dia ele vai voltar. Ela, sem raízes, num caminho oposto, na sua veia carrega rebeldia, lirismo e onde estiver seu alento é poder viajar. Ela, no seu ano de mulher, de busca e descoberta. Ele, no seu ano de contato, de reafirmação, identificação, de aproximação do que realmente ele sente e sabe que é. Ela, no entusiasmo do novo. Ele, novo, refeito, na busca do que é velho. Ele, regente do revoar das aves. Ela, passarinho.

Da disposição, nasce o encontro. Ele do mato, ela do mar, e na cidade grande, na selva de pedra acabam por se encontrar. Ele de verde e azul, ainda camuflado. Ela de branco e rosa, exposta. Era dia de caça. Ela com punhal, guerreira. Ele com arco flecha, caçador. 

Ele parecia estar sem jeito, como quem guarda um segredo. Ela, afoita, numa fala disparada, revela todos os seus. De fato, ele guardava um segredo, mas naquele momento, ele só estava a ouvir, perspicaz, traçando rotas de fuga ou de encontros futuros. Ocorreu, logo na sequência o toque, o beijo, o desejo, o atrito e a harmonia da junção e fricção dos corpos nus. A pele dele prateada como a lua, a pele dela, dourada como o sol. Tudo pareceu ser como tinha que ser, o tempo parou. O tempo continuava a parar a cada encontro, era tão natural, ao mesmo tempo divino, um contato novo que parecia ser antigo, duas almas que trocavam tanto, como se fossem uma só há tempos perdidos. Ela o enxerga, embora sua vontade é a de que ele se revele, no fundo ela sabe que não precisa, ela o enxerga. Ele, caçador de uma flecha só, deu um tiro certeiro. Como caçador e provedor, ela vê nele a necessidade de uma companhia, mas sabe também, que como peixe, ele precisa se movimentar, as mudanças que nele ocorrem são corriqueiras e vitais. Ele precisa do conforto de um lar, não de uma tenda em cada canto que parar, como ela… Sua energia vibra em uma frequência que pede que receba amor, mas caso se para ele ocorra o excesso, como bicho que ouve o predador, se assusta fácil e corre em outra direção a todo favor. Sua liberdade e independência de suas ações são seu equilíbrio. Por acaso, sentindo-se apertado, ele explode em mil pedaços, se divide, aparta, se torna impossível de pegar. Sensível, artista, engana bem quem não o olhar além, embora suas qualidades pareçam ser de uma pessoa passível e suscetível, tolo de quem achar que o tem nas mãos, pois como água, ele escapa ágil entre os dedos. Ela, como faca que corta, só deixa sangrar. Ela tem poder que emana em sua beleza, sua fala, seu andar, intensa, não fica sem história pra contar, lúdica, livre. Eles parecem opostos complementares. Ambos estão envoltos num lócus de mistério e um simulacro de paixão, e isso os atrai. Ela também o caçou, com seu manjar, o fisgou. E mesmo que ela seja mutável e consiga correr com o vento, ela tem em sua essência o desejo do chamego. Como cigana, já levou muitos corações, destruiu alguns com suas próprias mãos, cheia de encantos e feitiços em todo seu jeito de ser, já fez muitos se apaixonarem sem ao menos querer, ela sabe do seu poder. Com ele, ela não consegue utilizar de sua magia, pois sabe que é verdadeiro o que sente, com ele tudo para, e se for para ele pousar, que assim faça sem nenhuma artimanha ela usar. Ela o enxerga, ela o sente. Ela quando se aproxima do seu dengo quase oculto, sente o cheiro doce que sai da sua pele, ela faz questão de colocar a cabeça em seu peito para ouvir seu coração bater. Com ele, ela é vênus, galáxia, poesia, riso, choro e dor. Com ele, ela é atriz, é puta, é amante, é fiel, é dor. Juntos provam o céu e da boca cheia de estrelas, salivam do mel. Ela, prevê o futuro sem realmente saber, com suas lentes aceleradas se prepara para o pior, tem sina de quem sofre, por já sofrer demais, teme um dia chorar por seu caçador, acostumada a ser só por querer e não poder, seu fado é por toda vida carregar um amor proibido. Ele, prático, admirador das coisas miúdas, distrai-se facilmente em seu caminhar, vive a contemplar, se grandeza maior lhe aparecer, curioso como bicho ele vai lá mexer, conhecedor de vários mundos ao mesmo tempo, talvez nele não caiba espaço para um dengo, é o que ela pensa e acha que sente. E no meio de sossego e desassossego, segue ele, viril Caçador, e ela Guerreira, Cigana.



03 junho, 2018

Domingar

eu Domingo: verbo parente primeiro do Dormindo. nascido do Ser e Estar procrastinatório. Exerce a função de repositor das baterias mentais como também das banhas abdominais. Cuja ação é transição igual pra toda Segunda que insiste em (re)iniciar.

 - pelo verbo em vibração, pelo menos é dia feira pra poder desopilar, tudo indica que vou passar lá e pastelar. 


01 junho, 2018

Ficar Para Partir

Bole mole como o vento, que tem no tempo o vagar de todos os caminhos. De que adianta traçar estrada, passar régua nas coordenadas, se o tempo é assim, mistério sem fim. “Olha bem, não vou me demorar” dei por avisar em todo canto, até pros santos, “veja bem, eu não sou daqui”. Convicta da partida antes mesmo de chegar. Mas tempo é vento e chegou num tempo do tempo tudo mudar. Expandiu. Deu por desaguar. Essa chegada há de demorar. E dos planos aos panos a voar, o vento como soco me sopra no leme. “Mulher ao mar, mulher ao mar”. Afoguei. Perdi a bússola, perdi o mapa, perdi o fôlego, perdi o prumo. Que nesse todo derramar, dei conta que numa andança, soube me livrar de ser engolida por iemanjá, - eu sei nadar! De braçada a braçada, eu afirmo que chego lá, na minha visão, terra à vista tem pra pisar. Em todo esse tempo, eu já fui com o vento uma vez, duas, mais de três. Como sopro que corre, sou pássaro que para no tempo pra no ar plainar. Cheguei para partir, enquanto fico. E enquanto ficar, dessa chegada coisa boa ei de levar, que por favor, seja um amor leve pra dengar, pra que a gente possa tomar banho de mar quando pra casa voltar, fazendo de vez o relógio quebrar. E oxalá que dê bons ventos aqui, ali ou acolá, me dando tempo e força pra tudo aproveitar. 





30 maio, 2018

Feitiçaria

No dia que um feitiço em mim pegou, foi o dia em que me tornei invisível, em que tudo em mim parou de existir, afetada, entrei numa potência corpórea menor, foi um dia de perca de identidade. Estava invisível e ainda sim, tomada por excessos. Que dia denso, estranho, o sol ficou escondido, houve tão pouca luz no meu caminho, durante todo o dia era noite escura e fria em mim. Lua cheia, em um céu pouco estrelado, as nuvens que acobertavam seu brilho prateado, eram as mesmas que turvavam minha visão, minha compreensão de mundo. Perdida numa cosmologia que não era minha, nem de longe semelhante ao meu cosmos. Eu era o Outro. E a cada passo em falso, parecia despir alma e palavra involuntariamente, num impulso incontrolável à exposição. A fala me saia desenfreada, sem querer, contei todos os meus segredos mais íntimos, tomada de humanidade sebosa, da qual mais abomino, disseminei ladainhas. A sensação foi de estar embriagada, entorpecida do meu juízo, longe do centro, fraca, sem forças para encarar olhos, os mesmos que me fitavam e aos poucos sugavam minha blindagem. Sem controle, vulnerável, sem armaduras, quebradiça, foi o dia em que fiquei pele e osso, onde perdi todas as camadas de proteção, da razão. Me vi perdida em um caos que não costumava ser meu, em plena desordem energética. Louca, completamente alheia a mim e ao mundo. Esse foi o dia em que tudo e todos me interpelaram. Meu corpo; objeto, para-raio. Um corpo para além do bem e do mal. E em um lápso de razão, percebi que tinha algum feitiço sobre mim e só pude compreender tal feito ao me deparar com uma árvore frondosa, tomada por outra árvore parasita. Era o "eu" e o "outro". A árvore parasita escolhe um hospedeiro para se nutrir, numa competição por espaço e luz, sua intenção é chegar ao topo e aos poucos sufoca, estrangulando seu hospedeiro para sua própria sobrevivência, o deixando oco, o cercando, tomando cada sopro de vida para si. Era eu, tomada pelo outro, o feitiço era o mesmo que via nas árvores. E a grande Mãe, como sempre, me mostrou o caminho mais uma vez. Pude entender que o feitiço em mim pegou, a partir de um encontro potencialmente regado de energias ruminosas, fui afetada por um toque de mão, vindo de uma alma sebosa, que eu, distrída, me deixei afetar. Já ciente, aos poucos, depois de todo o estrago, senti o feitiço se quebrando, afinal, o feitiço só dá seguimento em seu encantamento, enquanto se aloja no mistério, se revelado e ou descoberto, sua força se esvai. Compreender a razão dos nossos sentidos é aumentar a capacidade do nosso pensar e existir, traduzir ações que nos cercam é entender a lógica do corpo em efeito e transmissão. Enxergar o poder que circula, cria e que nos atravessa em tramas e redes, fazem com que nos tornemos factíveis dos nossos caminhos, livres para sermos afetados ou não.

27 maio, 2018

Mapa Para Navegar

ai ioiô, ninguém avisou que teu peito
era porto pro meu barco atracar
ninguém avisou da dor de queimar
e não ter controle de apagar

mergulha em mim, até o fim
até meu corpo escoar  
todo líquido sagrado
que faz estrela em mim supitar
mata tua fome, me come

ai ioiô, se tu soubesses
que o dia raiou
e que sem teu sol, sem teu suor
quase não soube amanhacer

corre! passa por dentro da fonte
vem nadar no meu rio
se molha no riacho que forma em meu umbigo
deixa madurar, me devora suculenta
mata tua sede com meu suco

ai ioiô se tu soubesses
não passaria um dia sem me colher
se tu soubesses...

ando vivendo assim:
todos os dias teu fogo em mim
eu, iaiá, tenho no corpo teu carinho
cravei na pele o mapa pro teu caminho
vem fazer de mim, trilha do teu desejo
faça de mim mar, pro teu barco navegar

segue passando pelas minhas terras, 
minhas pernas.
faz minha boca salivar 
até que eu engasgue de prazer
deixa correr teu corpo, tua mão
até que eu regue todo o chão
 pra florescer na pele tesão

ai ioiô, deixa eu ser iaiá
deixa ventar, até que eu perca o ar
pra tu tornar a soprar
fazendo alastrar
toda paixão que me faz delirar

...


26 maio, 2018

Um Relato: Gemini no Onírico

Foi assim, afastada de todo barulho, num dia quente de sol, num dia verde, afastada de toda poluição visual, afastada de toda fumaça de diesel, longe de todas as especulações e longe de todas as pessoas que tanto almejavam por aquilo, foi assim... Eu grávida, não de uma melância, mas de duas, para minha surpresa. Era um dia iluminado, algo bonito estava prestes a acontecer, podia sentir na pele, na carne, pude sentir as mãos suadas e geladas, eu estava à espera de algo maior, bem maior, o frio no estômago, uma ansiedade que parecia vir com o vento, toda aquele vento que batia no meu rosto e balançava meus cabelos, todo aquele vento que assoviava e fazia com que árvores grandes dançassem, toda a natureza estava esperando por aquela chegada junto comigo, tudo ao meu redor, tudo que era externo, estava mais que interno em mim, uma força divina cuidando, guiando, foi assim que senti. Pequenos choques ao pé da barriga começaram a vir, me afasto, caminho, chego em uma cachoeira cercada de pedras de vários tamanhos, vou andando rumo a água, o vento ainda soprava forte, vou sendo guiada por uma força maior, força que me conduzia, mostrando o caminho... fui me livrando de tudo que fora forjado por seres humanos, como os anéis, brincos, roupas, me desnudo não só das coisas materiais que sempre adornaram meu corpo, como também das coisas materiais que ainda interferiam no meu espírito. Fico completamente nua, da forma que vim ao mundo. Lentamente coloco os pés na água, devagar no passo, vou submergindo, era como se estivesse deixando para trás um antigo "eu", mergulho fundo, o mais fundo que posso, sinto a água gelada me atravessar, todo meu corpo se contrai tentando adaptar a temperatura fria de uma cachoeira rodeada de pedras... nado até a queda d'água, emerjo, como se fosse outra. Emergir nova, então, dou impulso com meus braços e me sento em uma pedra, me fixo lá... Embaixo da queda, toda aquela água, toda aquela feroz queda d'água batia em minhas costas e cabeça, a água caiando em jatadas sobre meu corpo fora propícia para me acalmar os nervos e aliviar as contrações, já não pensava em nada, não era eu, como também não era quem eu carregava no ventre, não havia ego... éramos parte de um, tudo era um. A cachoeira, as pedras, a água que rolava e parecia cantar ao bater nas rochas sólidas e rio claro com toda força, as árvores, o sol quente, os pássaros que vez ou outra sobrevoavam naquele pico, éramos um. Eu já não sentia medo, já não sentia aquela ansiedade percorrendo pelo corpo, não sentia nem frio e nem calor, a dor, naquela hora, não estava mais ali. Sentada, na posição de lótus pude encontrar minha paz, de olhos fechados, conseguia ver tudo que estava ao redor através de outros sentidos, passava as mãos pelos cabelos enquanto a água tornava a bagunça-los, mexia meu pescoço num bailar sincronizado do que eu ouvia, três corações batiam, -nyahbinghi- era toda a natureza entoando louvores, coisa grande iria acontecer ali, eu sabia, eu sentia. Fico serena e me sinto interligada a tudo, esperando o momento certo da dilatação, eu sabia, eu saberia quando chegasse o momento, conectada com meu corpo, ali, ao natural, não me passava pela cabeça nada da medicina branca, nenhuma duvida que me fizesse titubear para recorrer aos brancos, à babilônia, eu sabia... Chega o momento, posso sentir, contrações bem mais fortes começam a surgir. Como as lapadas daquela queda d'água que recebia nas costas, dentro de mim, passo a sentir o mesmo, sinto o ventre contrair, posso sentir meus orgãos, todo meu corpo se movimentando para dissociar de mim o que cultivei por 9 meses. É hora! Vou para de trás da queda d'agua, ali no vão, uma fenda entre as pedras e água, como se eu mesma voltasse ao útero, me protejo ali, úmido, porém, quente e aconchegante, com uma pequena fresta no cume, que me possibilitava ver o céu, gotas de água respingavam por todo meu corpo, entro em trabalho de parto, não estava sozinha, uma parteira ali estava, não sei se guia, ou ser da floresta, uma índigena, não sei se humana, não sei como ela aparece, mas sei que ali ela está para me ajudar. Faço força para expelir da minha caverna uterina filhos meus, de novo, filhos meus... não precisei gritar, toda a natureza rugia por mim, meu corpo pelado roçando entre as pedras com musgos, eu tentava cravar minhas mãos naquelas pedras lisas lapidadas pela água, tudo embaixo, em cima, a minha volta era energia, tudo me dava força para realizar esse ato, que nunca fora meu, que sempre esteve tão alheio e distante de mim, posso sentir as contrações, fortes, cada vez mais fortes, sentia meu corpo se abrindo, rasgando, eram meus filhos travando uma batalha para sair dali, não precisei de ninguém limpando o suor da minha testa, pois a água que ali respingava, o fazia, não estava sozinha, em nenhum momento estive sozinha, não tive medo. Olho para cima, pela fresta das pedras e vejo o céu azul como oceano, cristalino e cheio de espuma, encontro a calma, respiro fundo e falo para mim mesma que seria daquele suspiro que meus filhos veriam a luz e , assim, foi, pego essa força para tirá-los de dentro de mim, - nasceram! Ambos em volta da placenta. Não se rompeu a bolsa de proteção, não se rompeu. Sairam de mim com seus escudos, com proteção, ainda recebendo oxigênio pelo cordão umbilical, - é íncrivel a visão. A parteira me diz que é sinal de boa ventura, que teriam vida longa, que seriam meninos afortunados, sábios e guerreiros. Num processo ritualístico, com eles nas mãos, eu rompo a placenta, eles não choram, mas respiram com seus pulmões pela primeira vez sozinhos, puxam com muita força o ar úmido e puro de uma selva, como se fossem gratos, coloco eles em meu colo, um em cada braço contra meu peito, eles buscam ferozmente pelo alimento, os dou de comer, a parteira vai embora e ali ficamos, naquela fenda, guiados e protegidos por tudo que nos cercavam, filhos meus, frutos de um dengo que não sei da raíz, mas sabia que vinham de um chamego maior, antigo e verdadeiro, olho para o céu, enquanto eles estão ali se alimentando de mim, eu, provedora de vida... agredeço e choro feliz. De repente, em minha cama, fechada no meu quarto, acordo chorando, com uma vontade de não acordar, era um sonho, que parecia não ser, não soube compreender se vivi aquilo acordada ou se estava dormindo, - era um sonho! que estranhamente não queria que fosse... acordei com uma bizarra sensação que aqui não era meu lugar, confusa, - é um sonho! Repeti algumas vezes-... sem saber muito bem como interpretar tudo isso, desperto. Realmente, ainda sem entender, pois pude sentir cada detalhe, volto para realidade feliz por ter vivido uma experiência tão rica como essa. Uma experiência que pra mim atravessou tempo e espaço, não sei se passado, nem sei se futuro ou em outro mundo, dimensão e ou planeta, mas sei que vivi o que pude sentir, uma experiência no onírico que a mim veio, não sei o porque, mas veio com tanta verdade, que só posso agradecer. Axé!

P.s.: Um relato pessoal, de um sonho que para mim foi real, que me aconteceu no trânsito de lua em gêmeos, em plena entrada de lua cheia. Tem interpretações possíveis? Deságua ae!

23 maio, 2018

A(mar) é Lar

Quarta feira:
Memória
Cinzas
 Tento amanhecer,
Levanto.
Prossigo,
Caminho desgarrada
Como filha perdida à procura da mãe
Como se fosse dois de fevereiro,
- não é.
Fui ver o sol nascer.
Nasceu 
Na lembrança, 
o penar por não saudar o mar.
Raiou,
Vai! Encadeia esse meu chorar
Que de tanto debulhar 
vai transformar Ser-tão em mar.
No meio dessa travessia,
fecho os olhos, às vezes, 
só pra sentir teu saudoso balançar.
Quando aperta muito no peito,
No delírio lírico onírico  
Finco bem os pés na areia quente e fofa
Multiplicadora,
Te carrego nas unhas
E em todos os cantos do meu coro de peixe.
Olho para cima, vejo o céu
Sei que é reflexo do mar,
de tanto amar.
Por cima da cabeça, só Pipa a voar 
A velejar nesse amanhecer
Atravessei o mar
Viajei pelo tempo e ar
Porque fiz da minha casa beira mar.


(2018 Cacimbinhas - Praia da Pipa)
...