10 agosto, 2018

A Pata do Leão

  Era noite, na esquina o primeiro encontro, o primeiro abraço apertado meio sem jeito. Ele cheirava a colônia barata, não era ruim, seu cheiro trabalhou na memória afetiva de Maria, trazendo lembranças de seu Nônô, velho preto, baiano, que usava henna escura em seu cabelo branco. Vaidoso, meio pirata com tanto ouro pendurado no corpo, mandingueiro, tomava pela manhã uma dose da garrafada de ervas com metade de uma colher de criolina, dizia ser elixir da juventude, dizia fortalecer seu espírito. Maria se sente confortável, pois na pulsão de um encontro às cegas, essa foi uma boa lembrança, com profunda semelhança astral. No seu observar, o andar dele era de quem vai a guerra, dava-se pra ouvir suas pratarias batendo uma na outra, em seu corpo. De estatura média, couro seco, filho de uma preta guerreira e médium, e, de um pai branco, fujão, carregava na pele a cor da mistura e as marcas da sobrevivência, era duro - carne de pescoço -, miúdo, mas de grande força energética, sua energia manifestava, o tornava grande, o tornava bonito. Era um homem virtuoso e espiritual. Um pouco sistemático, do interior do oeste baiano, do gueto, não compartilhava o mesmo cigarro de ganja por questões de física quântica. Ele parecia não ser daqui, disse mesmo que era alienígena.
  Depois de duas voltas no quarteirão, ele fumando seu cigarro metade canabis, metade tabaco e ela, fumando um cigarro inteiro de canabis, eles decidem parar para conversar. Vão para o boteco da esquina, de chão de cimento queimado, de cor esverdeada, de parede vermelha e branca, com mesas e cadeiras azuis, procuram um lugar para sentar, passam por várias mesas vazias, mas ele escolhe uma ao final do bar e diz: - "olha, meu bem! vai ser essa daí, a 7", pela entonação da sua voz, ele parecia ter bastante simpatia pelo número 7, foi sua noite de sorte. No sentar e decorrer, foram três cervejas tomadas, mas o que embriagou Maria, fora sua fala quase que ininterrupta, ele falava muito do que não se podia ver. Do que não se pode compreender... não chegou a estudar das matérias regulares, mas parecia não precisar, sua inteligência era a do sentir, tudo sentir, sábio, conseguia transitar por vários assuntos, parecia ter visitado outros mundos, sua vida foi sua escola, tinha a humildade pra falar do que não conhecia. Maria, estava em um derretimento só e em um conflito de emoções, ora ela se calava pra ouvir o que ele parecia ser; grande liderança espiritual e líder de causas e movimentos sociais, ora se revoltava por voltar a enxergá-lo como mais um homem, falador, comum. Mas sua percepção era aguçada demais para um homem puramente comum, que quase que instantaneamente ele percebia o desconforto de Maria, com sua fala desenfreada. Então, a deixava pensar que também tinha grande importância de fala naquele quase diálogo, quase monólogo. Ainda sim, ele tinha grande respeito pelo feminino, devido sua profunda crença na terra, na mãe natureza e no sentir, acreditava que o poder que criava, cultivava e geria, de fato era o poder feminino.
  Assim, as questões hierárquicas de gênero pareciam estar sendo superadas, evoluindo com o passar de suas experiências, era o que ele dizia e parecia demonstrar. Enquanto falava da importância do poder feminino para ele, Maria, mentalmente traçava paralelos e tentava perceber qual tipo de homem ele era em sua teoria. 
  Se era aquele que entende e respeita a força do feminino e quer a ela se aliar, ou se ele era do tipo que possuía raiva e inveja da força divina feminina, que traz a origem de tudo criar e dela só queria se apropriar. Enquanto essas questões permeavam por sua mente, ele muito sensitivo, logo a respondeu de forma muito simbólica. Pegou a mão direita de Maria e juntou com a sua, de forma com que os dedos dele e os dela se cruzassem, de mãos dadas, ele diz: "tá vendo, essa é a pata do leão". Ele se auto afirmou leão, como também afirmou que Maria era leoa, dizia sentir a energia e força suprema vinda dela, somente estando perto, em sua presença. Disse que um leão sem respeito por sua leoa, não é nada e que ele não vai muito longe sem a leoa, pois sem essa presença feminina, não existe ordem, não há comida à mesa. É necessário deixar a leoa livre para caçar, ele dizia e reafirmava que a força criativa e criadora estava no feminino, pacha mamma... E que não dava pra ser leão sozinho. Maria, fora pega de surpresa em vários momentos da conversa, ele parecia ter respostas para seus pensamentos, parecia saber ler a energia que exalava de sua pele sem ao menos, ela perceber. Ele não sabia ler cartas, mas falava, às vezes, do futuro de Maria, ele lia expressões corporais, ele conseguia traduzir o que sua pele sentia... E a energia de Maria, parecia o intrigar, quando ele comentava sobre sua energia, logo era interrompido com seu próprio riso, como quem soubesse de um segredo grande do qual não podia revelar, - não cabia a ele falar o que estava oculto, era talvez, a sina de Maria, algo que ela precisava entender sozinha -, e emendava dizendo: - "Cada um tem seu tempo... eu sei, mas se a força manifesta perto de você e você a sente, como agora, trabalhe ela, transmute, porque você é grande; você tem força, você sabe, você sente... lembre-se dessas idades; 26, 28 e 30" ao mesmo tempo em que ele alertou, Maria, de uma força que ela parecia emanar e que precisava ser trabalhada, ele se recostou na cadeira, passando a mão em sua cabeça, sorriu um sorriso leve e disse: - "está bonita, está bonita..." ainda com o sorriso no rosto, fechou seus olhos rapidamente, respirou fundo, abriu os olhos, a olhou de forma compenetrada e repetiu em um tom sério: - "está bonita, assim!".   Não era elogio a aparência física de Maria, mas sim, a sua energia astral, seu campo de força, sua áurea. A convicção de sua fala, era sem igual, sem querer, ele pareceu responder as perguntas que Maria estava fazendo aos céus há um bom tempo. Ele falava de evolução, de acesso e interpretação, para ele, as relações e interações só eram válidas se houvesse acesso, ele se dizia profundo, de fato era, o acesso estava no conhecer o outro além, sem o julgamento normativo do sistema, sem ego, por isso a importância da interpretação, ele dizia. A práxis de sua linguagem estava intrinsecamente ligada ao sentir.
  Quanto mais ele falava, mais Maria se embriagava, ele parecia falar o que, vez ou outra, ela falava para as pessoas ao seu redor, a importância do sentir, do ser sincero e de ser profundo. Nesse aspecto, Maria já estava ganha desde o começo, a similitude do sentir o mundo em volta, despertou em Maria, o desejo, o tesão, despertou a curiosidade de saber o que mais poderia vir dele, naquela noite.
  Maria, não se alimentava das comidas que enchiam a barriga, mas sim daquelas que enchiam sua alma e coração, comia diretamente da comida dos deuses, sua sede dionisíaca e sua beleza afrodisíaca, a configuravam em outra frequência nas trocas de relações, a absorção do conhecimento e de sua inspiração, estavam inteiramente ligadas à uma estranha potência sexual, a ideia do acesso para ela, estava em fundir-se ao outro, ao corpo, parecia somente ter a troca completa, com a energia sexual do outro pulsando em seu corpo, assim, ela se abastecia, se alimentava, se mantinha. Por isso, a seleta escolha do parceiro, como alfa, como leoa. Maria sempre soube dessa sua força que a fazia  transitar no mundo místico e no mundo real, não fora novidade o que ele falou, mas foi novo, um homem ser tão sensível e saber ler dessa luz, desse poder, que até então só mulheres conseguiam perceber, enquanto os homens nunca foram fortes suficientes para reconhecer. Quando o último copo de cerveja acaba, ele logo pede a conta e ambos saem do bar, para dar mais algumas voltas no quarteirão. Calados, caminham um ao lado do outro, - sem se encostarem -, em direção ao final da rua, Maria não precisava mais ouvir sobre física quântica e nem dos tipos de energia, ela não precisa mais ouvir do que sabia muito bem sentir. Na mecânica dos corpos em movimento, um campo de força se abriu em torno deles, ela elétrica, ele magnético. Duas cargas opostas em profunda atração, o primeiro toque, - após tudo que tinham de apreender um do outro somente pela fala -, novamente se dá, pela simbologia, ele pega a mão de Maria, faz a pata do leão, a inverte de cabeça para baixo, formando um triangulo, dando abertura para somente os polegares se tocarem, ele estala seu polegar no de Maria, 7 vezes, sussurrando algumas palavras de força e positividade. A noite era de sorte. Maria, conseguiu receber o que do fundo do coração ele parecia lhe desejar, o bem, só e puramente o bem. Nessa hora, todo o corpo de Maria, já estava em combustão, ela não conseguia falar, apenas sorria com seu sorriso de mar aberto, ele a abraça forte, pega em sua cintura e fala em seu ouvido:  - "Você é doce. Manifesta poder... vamos só nos sentir essa noite". Maria, mal conseguia se controlar, seu corpo devoto do Prazer, só pensava em devorá-lo, essa sempre foi Maria; a fome insaciável, a energia incontrolável, a pulsão movida pela sua extrema líbido. Na cadência de uma noite quente de agosto, a ardência do beijo dos dois, o gosto, era a conexão entre a chama do fogo e o gozo. Maria,  estava faminta, com dentes e garras para fora, mas não conseguia se mover, a energia que emanava dele era tão forte que a paralisava, presa de seu predador, Maria congelada, só ouvia o som de sua própria respiração e de seu coração batendo cada vez mais forte. Aos poucos ele ia encostando sua boca em sua nuca, de repente, um silêncio absurdo se expande, potencializando cada vez mais o som da respiração pesada do leão, como quem sente o cheiro agradável da carne. E como quem amansa feras, ele passava a mão pelo corpo trêmulo e quente de Maria, com um tom sereno, dizia entre um beijo e outro: -"Calma, a noite inteira vai ser assim. Eu só vou te sentir, eu só quero provar do teu gosto doce. Você é doce... ". Maria, já tinha ouvido falar sobre seu gosto doce outrora e era para este, que um dia se lambuzou em seu corpo como abelha no mel, que ela guardava seus melhores afagos e melhores beijos, mas seu amor numa tarde qualquer saiu para pescar e nunca mais voltou... Maria, acredita que ele enfrentou uma tempestade almática, deu por cair no mar e acabou se misturando entre os peixes. Então, Maria, sem muito pensar e completamente hipnotizada, acabou por confundir seus amores, se entregando como uma gazela ao leão. E naquele noite de desejo lancinante, pela primeira vez, Maria pôde ser domada, entregando-se aos beijos e dentadas. Ele parecia não se cansar, acariciou o corpo de Maria, incessavelmente, se pudessem contar, mais de mil beijos molhados e encarnados ele lhe deu. O corpo de Maria, era fogo alto de quem não deixa de por lenha na fogueira, em meio tanto prazer, era cavalo sem cela, nua e em pelo, à galope, correndo pelos campos verdes e floridos. No sexo, é súcubo, seu corpo vira receptáculo de energia, de força. Seu corpo exalava calor, de fato ela parecia queimar, todos seus nervos pareciam se contorcer e ele em seu ouvido ficou por repetir: -"Não consigo parar de sentir seu gosto doce. Você manifesta, você manifesta poder. Você é muito mais forte do que eu". Ambos se deliciaram da comida que ela mais gostava de comer, a noite toda só se sentiram, a textura da pele, o ar quente da respiração, os grunidos de prazer, as batidas aceleradas do coração, a saliva, o suor, o gozo... Quando a luz da manhã já invadia a sala, pela janela, ela olha para ele, todo suado, lhe dá um abraço e sorri um sorriso terno, como quem agradece, ele sorri de volta, como quem acredita tê-la conquistado, ele dorme aliviado, prevendo sua estadia. Maria, ainda ao seu lado, sente o cheiro dele amanhecido, tinha cheiro de eucalipto, tinha cheiro de liberdade, ela levanta revigorada, toma um banho e sai pela porta sem que ele perceba. Maria, acredita em energia e acredita, como também quer, que a energia dele circule pelo seu corpo e é só disso que ela precisa. De fato, ele entendeu, pareceu ser o primeiro a entender, Maria era mais forte que ele, Maria é mais forte que todos os homens, era esse o segredo que ele não queria revelar. Um leão não vive sem a leoa, mas uma leoa vive sem o leão. Maria, livre pra caçar, saiu pela porta para nunca mais voltar.



21 julho, 2018

Então ela se deixava ser inocente...




Por Martin Frager

"Como todos os poetas, era presa de sua paixão
Presa de seu coração
Condenada a só poder ser absolutamente feliz
isso é, nunca feliz.
Amava o amor demais
Para realmente poder amar os homens."



Nota: Quando alguém te traduz em poesia, não há nada a fazer senão enaltecer. Ainda há aqueles que tem olhos que conseguem enxergar, ainda há quem sinta, ainda há aqueles que vivem, que amam, que queimam. Um escrito, causado pela sinceridade e essência do eu, do ser. Contato, troca, assim que sempre deve ser. O que pra ele foi um espasmo de um sentimento, pra mim foi toda a arte, a beleza, a graça, todo o amor. Um presente, que veio em um dia de luto horrível e me salvou, ainda um presente, ainda me salvando. Afinal, arte é alimento pra alma; que a poesia prevaleça! e que o sentir, o amor, vençam!  GALANGA OUT OF BABYLON! 



17 julho, 2018

Nattydread Inna Babylon

Maria,

Eu quero ir embora. Quase não há sol por aqui e eu sinto a luz que ainda resta em mim se apagando aos poucos... Maria.... anda frio e escuro, eu posso sentir. Preciso ir embora. Maria, é isso, parece que agora eu consigo entender, a busca não é tão somente por novos e desconhecidos lugares, mas sim, por pessoas, que inesperadamente nos surpreendam com sol e vida, assim como nós, que numa sensata devoção acreditamos que a vitalidade e essência do existir está naquilo que mal compreendemos e que deixamos de lado por não saber praticar... Maria, fico feliz por hoje ter olhos que me permitam enxergar, fico feliz pelos meus braços e todo meu corpo terem travado lutas e guerras; minhas cicatrizes pintam minha alma e carne, afinal, é assim que é forjado o escudo de uma rasta... eu posso aguentar. Maria, aqui todas as pontas ficam frouxas, não há vínculo, não tem elo. Eu tentei avisar, eu quis avisá-los, mas não valia a pena. Eu não quero mais conflito. 
O tempo continua a correr, percorre conforme as rotações da terra, os nasceres e pores do sol. O mundo está mudando, posso sentir, mas meu bisavô sentiu antes de mim. É possível sentir pelo cheiro do ar, que já não é tão puro de tragar. É verdade, o mundo está mudando, posso sentir, mas meu avô sentiu antes de mim...
Às árvores foram substituídas por troncos de concreto, que também é lugar de morada, só não para o passarinho. Casa de passarinho agora é gaiola; serve de atração pra humano.
Rinoceronte, só existe no quadrinho. Dos rios de águas doces, que antes a gente podia matar a sede, hoje, mal podemos nadar.
Cada vez mais querem nos tirar o que da alma tem de verde. Nós, assim como as árvores, estamos solitários. Com o avanço do tijolo, criou-se um vazio entre uma árvore e outra, entre uma pessoa e outra. Afastadas, cortam folhas, raízes e relações, na justificativa de atrapalhar fiações... às vezes, resiste uma ou outra, porém, sem companhia são fadadas a morrerem sozinhas. A perspectiva já não é mais a do céu, a visão foi tomada por arranha-céus, aqueles que não nos deixam ver o por do sol. 
Maria, e se eu te contar que por aqui documento rege a vida, tem documento pra nascer, casar e até pra morrer.
Nós mudamos, meu amor... e isso me preocupa. Num galope cheio de lembrança é que percebo o golpe, as pessoas não se olham mais nos olhos e em tão pouco tempo deixaram de se cumprimentar na rua. As pessoas se comunicam por aparelhos e demoram dias para se encontrar, sendo que, às vezes, estão só a 2km de distância... Ah, Maria, é tanta agonia, tanta discrepância, que mal me deixa respirar.  Descartam pessoas como papel de balinha. Tontas, parecem que perderam da bravura de falar a verdade, não conseguem mais manter amizade e reciprocidade. Maria... o mundo mudou... eu posso sentir em cada centímetro da minha pele; o mundo mudou, eu posso sentir nos ossos, nos órgãos, na atmosfera, no vento, até mesmo na chuva que cai. As pessoas adoecem da mente e coração como quem pega gripe. Eu também fui pega pela virose que o sistema causa, meu sintoma de ânsia e febre vem com a falta de consciência, a falta de empatia, de amor, de amor, Maria... Não existe conexão entre as pessoas e viver, ver tudo isso, me causa frio na espinha. Aqui, vivem no ritmo do sistema; acelerado, egoísta, frio, individual... eles não percebem, mas já são filhos de Babilônia e reproduzem a lei do descarte, propagam a repressão, a segregação, o ódio, a inveja, a competição. Eles ferem e não percebem o mal que fazem a nós que não somos daqui. Aí, Maria... por aqui, as coisas andam tão difíceis, você já não sabe quem é o inimigo e não sabe de quem ter medo. Tudo anda tão nublado. Há tanta mentira, eles mentem, Maria, eles mentem até por coisas triviais, eles são tão fracos, covardes e pequenos, cheios de títulos, de máscaras, de status. Quando saem as ruas; como políticos, se cumprimentam, sorriem e dão batidinhas no ombro, depois viram as costas e nunca mais se vêem... não passa de uma farsa teatral. Por aqui, acreditam cegamente em coisas efêmeras, o ego escorre e fede como chorume. Maria, meu lugar de encaixe está em Zion... as energias, assim como a poluição, são tóxicas, radioativas pro pulmão, pra mente e corpo são. Veja bem, essas pessoas não dançam e nem se abraçam em público, por um pudor velado, um desejo castrado, por medo de não conseguir voltar, por medo de conseguirem se libertar, falta tanta coragem, falta fé. Já não dá mais pra acreditar, eles vivem de promessas não cumpridas, de sonhos, encontros e contatos não realizados, tudo vira fantasia, ilusão. E te digo, Maria, já não sei viver com toda essa porcaria, eu sou puro espírito, não quero daqui levar conflito, eu quero paz, simplicidade, sorriso e humildade, eu quero ouvir o nyabinghi tocar.  Já não sei viver como se não fosse parte da terra, do barro; não quero viver sem árvore, sem passarinho, sem cantoria, sem amor, sem poesia, sem contato. Eu não sou daqui... Minha busca é por semelhantes, sei quem eu sou, sei de onde vim, tenho meu roots no sangue... Te escrevo daqui, por lembrar do sopro do vento, o mesmo que inflava meus pulmões e as folhas. Te escrevo pela saudade de Rosa, de prosa, de dança, de riso, de sol, de amor, de cor, de mar... É só saudade, Maria... Vê se manda um beijo pra Flor, que com tanta inocência e amor a mim cuidou, mesmo sendo eu que dela deveria cuidar. É só saudade... Maria, com todo meu calor, da chama que resta em mim, eu te desejo coragem para viver a vida e que nossos dias sejam sempre claros como os raios de sol e rezo pra que todos nós possamos nos encontrar em Zion.

Com toda luz,
de sua igual,

Eu&Eu

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15 julho, 2018

A dor é poesia

Ei, mulher, porque tu choras? Há pouco vi no brilho dos teus olhos vida e não lágrimas. Diga, de onde vem todo esse debulhar? De onde vem essa vontade de se desfazer em mar? O que te machucou? Me diz o que da terra, te sara? Vamos, não esconda nada. O que te cura? Me diz, que vou atrás, nem que pra isso eu percorra por todos os cais, me fala, que sou até capaz de parar terminais... Por você, por amor demais. Quem te feriu assim? Me diz, por favor, me diz! Que por ti, eu duelo, eu enfrento deuses e o tempo. Me fala dessa ferida que sangra, pra eu poder por a mão, deixa eu estancar de ti toda dor que há, deixa eu levar embora essa saudade que da tua goela, o nó não sai. Me fala em que canto, em que quarto, em que casa, em que calma, tu deixou parte da tua alma? Me diz pra quem tu deu de comer o teu coração? Me fala, quem és tu, mulher? Cadê você? Aonde você foi? 
Eu hoje vou tomar o ônibus pra outra dimensão. Está tudo bem, por aí? Eu queria saber, não dá mais tempo pro café. Foi assim, num dia de sol que você me mostrou... Foi num dia qualquer, que aquele café sobre a mesa esfriou, aquele que você recusou pela manhã, enquanto caminhava rumo a porta. Agora, me resta teu reflexo no espelho, teu perfume, teu cheiro, teu corpo, tua fala invisível, todos teus discos, teus livros, tuas roupas... Mas quem és tu, mulher? Esquece desses pensamentos, que como nuvens carregadas tornam a pairar por tua cabeça, inundando teus olhos d'água. Para de regar esse jardim... Deixa secar, deixa secar, deixa morrer, pra que depois você possa, livre, renascer. Eu já estou no terminal, eu vou partir. Vou viajar por outros astrais, outros canais, outras frequências, até... Mulher, deixe de besteira, não chores por tristeza... Pois esta dor é só poesia. 


14 julho, 2018

Orgasmo é minha prece


Faz parte do caminho
Ter direito ao corpo
Ao gozo e ao riso
Beber direto da cabaça
A água
A vulva
Fonte da vida
Tá dentro do caminho 
Ficar mais um pouquinho
Por prazer
Até amanhecer
Não parar até
Escorrer
Só por prazer
Naturalmente
Minha natureza
Selvagem 
Te espanta
Me ver excitada
De perna fechada
De perna aberta
Toda molhada
Espanca
Saber do meu desejo
Que o gozo é minha única verdade
Ver que a minha vontade está
Puramente no ato em si
Te assusta
Eu ser amante do meu corpo
Te espanta 
Minha fidelidade com o prazer
E meu gozar ser mais importante 
Do que você e do que o acompanha
Ser mulher, ser livre, 
Ter cabeça, ter boceta,
Ter fetiche, ter fantasia
Ter peito, ter boca, 
Ter boceta
Ser mulher, ser livre
Ao riso, ao gozo
Ter prazer
De perna aberta
De olhos fechados
Toda molhada
É minha lei
Ser prazer
Corriqueiramente
Ser mulher

- façamos!

11 julho, 2018

"Olha essa sombra, esse rastro de mim. Olha essa sobra, essa réstia de sol"



Imagens podem e devem ser codificadas e traduzidas como poesia. Assim como a fala, o gesto, o corpo. E hoje, pretendo ser exatamente quem sou, através de todos os elementos que me são possíveis.



Um corpo, castrado e construído para ser tudo aquilo que não é hoje
Hoje, um corpo desconstruindo-se, forjado da lama, do barro, da sujeira, da dor, do caos.
Um corpo, que foi violado a força quando nem corpo era,
Um corpo, mais um corpo que cresceu e resistiu. 
Um corpo, que antes vazio 
Hoje, um corpo cheio, uma arma
Um corpo... Que ainda num estigma, é alvo.
Um corpo, um signo, um símbolo, uma bandeira
Um corpo que sente, que vibra, que chora
Um corpo, censurado, velado
Um corpo, interpelado por luz, como também pelas trevas...
Meu corpo.
Meu corpo que é reflexo da minha luta, da minha alma.
Sendo assim, o que posso ser hoje
 senão a luz que invade a janela e se refaz sobre a pele
Ser luz, aquela que configura, que se apodera e ilumina.
Que materializa formas, que renova, ressignifica
Um corpo, que se veste de alma lavada
Um corpo que sofre, que tosse, que fede, que se abre em ferida
Um corpo, que ainda sim, existe.
Resiste.
Um corpo, que até hoje só o sol e o vento soube manejar
Sendo afago, refúgio e alento pra minh'alma descansar.



10 julho, 2018

"É doce morrer no mar"

Tereza mal sabia explicar o seu amor aficionado pelo mar, mas sabia bem como expressar a dor de estar em terras distantes, seu semblante era de uma melancolia eterna, sempre saudosa e terrivelmente cansada de esperar a chegada, a volta de seu maior amor. Ahh, o mar... não saia nunca de seus olhos, aqueles olhos grandes e escuros que mesmo envoltos de tristeza, não paravam de brilhar. Ela tinha daquele olhar estúpido de tudo acreditar, assim, ia tentando andar como quem pisa em louças, de leve, para não quebrar em seu novo caminho. Mesmo sabendo que tal coisa não fora feita para acontecer com ela, - não foi! Pobre, Tereza... Tereza, que tem por nome a natureza de um animal selvagem. Tereza, nome de santa. Tereza, que tem como origem a própria origem, daquela que não se nega; que não nega na pele e jamais na alma, na crença, na cabeça, na cara, na fala. Tereza não consegue negar, às vezes parece não se esforçar, ela tem disso de querer o a-mar. Ela sabe bem que seu marinho, eterno companheiro é o mar. Tereza sabe flutuar, ela, dentro do mar sabe que lá é o mais próximo do céu que ela pode tocar, então, ela voa, ela corre, ela mistura, ela dança, ela pega, ela brinca, e acima de tudo, ela agradece. Ela agradece toda vez por estar viva, por sentir Deus, a luz que tudo move, tudo cria. Ela agradece por estar rodeada de vida, de força, imensidão, perfeição. No mar, seu corpo sabe gingar com cada passo sensual e cheio de curvas que vem do movimento das ondas robustas. Seu corpo boia leve como pluma correndo com vento. No balanço das águas, ela encontra calma no fundo de sua alma, lá ela passa a existir, é como o encontro perfeito dos pares, é como se fosse o próprio ciclo da vida acontecendo alí em sua pele, todo seu ser sendo tomado, - enquanto, na verdade, só e puramente só, seu corpo, estava sendo concebido... desaguando rio em mar, reforçando origens, raízes, sendo natural, como parte da natureza, que é tão real e divina, sendo aceita em toda aquela extraordinária força da criação. Tereza tem alma de rio, de lago, de mar, de oceano... chega a ser tão vasta, profunda, bonita, clara e escura, dependendo do clima da terra, do movimento do céu, da direção do vento, da migração dos pássaros, dependendo dos ciclos lunares, do humor da natureza, que vive a trazer àquelas mesmas tempestades. Ainda sim, é no mar que encontra sua liberdade... dentro d'água, por vezes, esquecia-se de quem fora um dia, para passar a saber exatamente quem era naquele eternizado instante. 

- Pobre Tereza, nunca me esquecerei daqueles olhos tão doces e sinceros... Tereza morreu, tentando chegar à praia.


No princípio era mar

lá onde tudo principia, 
os bichos conhecem do mato, 
sabem dos caminhos da floresta
onde as estrelas que ficam no mar
refletem no céu, 
onde há a energia latejante do sol,
aquela que possibilita tudo criar
lá onde tudo principia. 
onde faz o coração pulsar
numa batida sincronizada com a vida
da vida, a dádiva 
lá, além do fim 
na linha do horizonte,
onde o tempo não corre
e como criança, todos se lançam ao mar
sem medo, não há medo, não há dor
lá onde tudo principia, 
o povo só se alimenta de amor
lá, onde o azul vira canção
e o vento vira poesia que assobia leve o (a)mar
trazendo todas as cores à cabeça.
lá, quando se formam brumas
todos se põem a rodar
com os pés no chão e os braços no ar
fazendo tudo que cega, dissipar.
lá, onde deixei meu coração pro mar.


08 julho, 2018

Quando vieres morno, chupe um picolé de limão


o sol girou, dando volta na terra
- deu volta no meu desejo
o sol girou, deixando no céu o compasso
eu já conheço teus passos.

a roda virou e achei que fosse demorar
hoje é sexta feira, de saia rodada vou sambar
saí pra rua em busca de roda
foi na roda que te conheci
não te vejo mais lá e nem aqui.

o sol girou, dando volta na terra
- deu volta no meu coração
o sol girou, deixando no céu o compasso
teus passos, não foram diferentes daqueles que passaram.

a roda virou, não achei que fosse demorar
demorou o suficiente pra me fazer lembrar do sabor,
do teu toque, da tua energia, do timbre da tua voz, do teu calor.
teu calor... que ao final, não passou de fogueira amanhecida.
não é de brasa que preciso. preciso de chama, acesa e viva,
coisa que nem você e nem ninguém (...)
falo daquilo que queima a pele e arde, arde a ferida e inflama o peito.

eu tentei te incendiar, tentei te contagiar com a febre do meu desejo
enquanto você, assim como aqueles que por aqui já passaram,
agiu como quem tivesse medo.
talvez por não querer ou por puro desleixo, 
ainda tentava me alimentar vez ou outra 
com um copo de leite morno,
quando eu não parava de entornar leite quente.
pois dá próxima vez que me vieres morno,
pense bem... já não sou a mesma.

eu esperei, porque em meu ser, queria te querer
mas já é hora de abrir a porta e deixar o vento passar
teu leite morno não me alimenta
e não esquenta nem metade do meu fogo.
antes, teu olhar me ardia mais que ferro quente
queimando a pele,
e hoje, sequer tenho (...)
pois te digo, costumo saber meu lugar,
sei a hora de me lançar,
nada me adianta ficar se já comi com farinha teu desprezo.

estou indo embora, pois ainda quero dançar
e sempre há, sempre há alguém a queimar
saiba, eu quero queimar por dentro enquanto alguém por fora me tocar
nesse caso, é melhor eu ir embora.

o sol girou e parece que clareou do lado de cá.



28 junho, 2018

A carta que se perdeu no correio

Mãe, sinto falta dos mapas gigantes, com leves rasgos nas dobraduras, que tirávamos do porta luvas para poder nos guiar ao viajar, aquele mapa plano, de papel couché, com várias rotas riscadas, do qual todas as crianças, inesperadamente e quase que instintivamente pegavam com todo cuidado, como se fosse o mapa do tesouro. 
Quando criança pude achar desses tesouros em alguns lugares, tudo começou com uma caminhada simples, de Luziânia à Brasília. Da minha coleção, as melhores pedrinhas eram do Bregildo, em Cocalzinho de Goiás. Uma aventura que logo tornou-se corriqueira, era da busca de um vulcão que deixava as águas quentes, eram o que diziam em Caldas Novas, mas só encontrei piscinas com cloro que deixavam meus olhos vermelhos. Gostava mais quando íamos em busca de cachoeiras, quando tentava pegar piabinhas com linguiça e farinha pra poder levar pra casa e criar, não me importava se iria ficar um peixe grande, era só ter um aquário maior, pelo menos a Thalia Maria Batista Farias II, - um peixe beta que suicidou - não iria ficar sozinha. Lá em Formosa, Corumbá, Goiás e Pirenópolis, encontrei várias pedrinhas lindas, mas tive que deixar todas, porque já tinha pedrinhas demais... Nesses lugares aprendi a nadar melhor, ou pelo menos a dar impulso maior, porque pulava nas partes mais difíceis e fundas só pra não esbarrar com os girinos que insistiam em nascer fazendo morada na borda dos rios e das cachoeiras. Lembra que uma vez a prima Silza, colocou alguns numa garrafa de guaraná pra criar?! Nessas trilhas também aprendi que é necessário tomar cuidado, lembra que peguei carrapatos na orelha? Eu fiquei mais aliviada, porque o irmão pegou em suas vergonhas, rs.  
Já na Chapada do Veadeiros, jurava que iria encontrar vários veados saltitantes, não encontrei, mas achei cristais, dos mais poderosos e belos.
Uma vez, na chácara do Tio Bené, lá em Marajó, eu ia fugir - mandaria cartinhas - estava determinada a ir pro Japão, o Xande me disse que se eu cavasse um buraco fundo, conseguiria chegar lá, então eu cavei, cavei, cavei, mas só achei minhocas e acredito que uma nascente também, daí me cansei e fui tomar banho de rio... Daquela vez, por pouco não fui embora...
Depois veio as aventuras com o mar, meu primeiro contato foi em São Paulo, mas de toda a viagem, o que mais gostei foi da Tatá, a tartaruga velha do meu Tio Mael lá no Capão, que tinha o mesmo apelido que o meu, nessa viagem todos me chamaram de Nega, acho que foi pra não confundir a cabeça do bicho, mas você continuou me chamando de Princesa.
Meu primeiro e último surf, como também meu primeiro caldo foi em Guarapari, lembra? Fiquei um minuto rodando com as ondas, gritei por você embaixo d'água, mas entendi que dali só sairia sozinha e saí, empanada de areia, cheia de algas no cabelo, parecia um monstro do mar, você conteu o riso e tentou mostrar preocupação, - tudo bem, era de rir, acho que até hoje tiro areia do cabelo. 
Depois quando fui ao Maranhão, por ter atravessado o Rio Mearim, já sabia como era o balancê maroto das águas, eu ainda só não sabia das águas vivas, mas descobri elas na pele, com muito ardor. Foi lá também que comi orelha de macaco pela primeira vez, que é um bolinho frito de arroz, liguei pra você e foi a primeira coisa que contei, você ficou triste achando que tinha comido um macaco de verdade, foi a melhor pegadinha... em São Pedro, perto de Tum Tum, na fazendo daquele primo rico que não sabíamos que ele existia, conheci a Sandy, a maior vaca de todo o nordeste, ela era campeã, eu nunca tinha conhecido um bicho tão grande, também te liguei contando que tinha conhecido a Sandy, fiz parecer que era a Sandy - do Júnior -, você ficou super entusiasmada, eu ri muito e depois falei que era a vaca do primo rico, você riu e disse que sentia minha falta, porque eu a fazia sorrir.
Quando fomos à Três Marias, eu já sabia identificar constelações, que aprendi no desbravador acampando em cima de uma montanha, o líder era o Fabiano, que nos acordava de 2h em 2h para nos ensinar sobre as estrelas... deveria ter tomado mais café, pois não identifiquei nenhuma constelação em Minas Gerais... Não tinha problema, estava contente por pensar que ali também havia vulcão, por conta da água quentinha da Praia das Minas. De todos os mergulhos, sempre no raso havia suas canelas, eu sempre tive essa coragem por você, nunca deixei passar batido nenhuma água, o mergulho ao fundo e os metros d'água sobre minha cabeça eram a fonte da minha paixão, você sabia e nunca se opôs que eu chegasse ao fundo, mesmo preocupada, sempre acreditou que outrora emergiria. 
Depois veio Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Ilhéus, Barreiras, Bom Jesus da Lapa, Vitória da Conquista, Barra Grande, Maraú,  Espírito Santo, João Pessoa, São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte - que sorte -, Natal, Pipa, Rio de Janeiro, Pipa, Natal e outros mais que já nem lembro. Tantos lugares novos e velhos, tantas voltas, tantas pessoas. Mãe, eu cresci e nada em mim mudou. Esse impulso que tenho de correr por aí, se deu desde o início com o mapa velho do porta luvas e os programas sobre os lugares do Brasil e mundo que passavam no canal 21, -TV aberta de Brasília-, todo meu encantamento com tantos cantos foi você que cultivou em mim, então tá tudo bem, tudo bem eu cavar um buraco e atravessar o mundo, eu vou te mandar cartinhas, prometo! Hoje eu já sei nadar, eu já sei fazer trilhas e me livrar de carrapatos e girinos, eu já sei me cuidar para não pegar insolação, também espero trinta minutos depois de almoçar pra poder entrar na água, confesso que eu falo com estranhos, mas não falo com aqueles estranhos, estranhos que dá pra ver a aura escura, acredita, mãe, tá tudo bem. Eu sou filha de um maranhense karateca, lembra?! Além de ter fogo, também sei bater, também sou ligeira pra correr, tá tudo bem, só continua orando daí, que eu vou orando daqui.
De você tenho coragem e sabedoria, além da destreza com artes e poesia, então tá tudo bem, deixa eu levar pro mundo um pouquinho de você em mim, nem todo mundo teve uma mãe assim... Eu quero correr o mundo, que sei que você queria, então deixa eu fazer isso por nós, fique tranquila, porque sou passarinho criada solta e só canto de alegria se livre eu poder voar, então, tá tudo bem, mãe, porque o amor é vivo e a roda da vida, vive, só nos cabe movimentar, mesmo que cada uma de um lugar.