10 dezembro, 2018

ata-me, se puder

o que não cabe em nós, me sobra
às vezes transborda em mim a falta
eu me dobro, faço curva, faço nó
não tenho direção maior
mas insisto, eu existo.
resisto e assim me valho de substantivos
porque to de saco cheio dos adjetivos,
dos verbos cristalizados ditando relações
não força! não força, já que não se esforça
embale na rede o balanço de sua cegueira
e enquanto dormir no profundo de si
seus olhos jamais me verão ir
porque eu não quero ficar a te olhar dormir
sustente a passagem e a não permanência
dos anos embalando-se pouco a pouco na rede
pra depois não sussurrar baixinho
que a vida passou e eu nem vi.
bem te quis, mas prefiro bem te vi
desperte ou se esconda em sonho
na fantasia daquele que cuida
daquele que não tem ego
e que acha que serve quem ama
me faça rir e ainda sim, não me verá partir.

28 outubro, 2018

A peleja de Maria

Roga à Deus, ó Maria
Respira um pouco e te eleva
Vá subir a serra
Porque na terra
A bala é a promessa da guerra
Roga, ó Maria
Acenda a vela
Vê se a cabeça do teu povo alumia
Prepara a mala, a alma
Tenha calma
Que o teu amor em Porto lhe espera
Vai, roga à Deus, ó Maria
Que o ventre é um só
Das aldeias e dos navios
Tua fonte de beber é o rio
Que na derrama, misturou sangue
Sangria no mar
Mas não vá chorar
Levanta, ó Maria
Que tua botina tem légua pra passar
E não há de apagar
Lamparina no meio do teu caminhar
Vai, olha pra frente, ó Maria
Amanhã é outro dia
E o galope se dá logo no raiar
Roga Maria, pela vontade de viver
Clama pela vida dos teus
E da tua fé, não deixe nunca de crer
Roga à Deus, ó menina...




24 outubro, 2018

Xuê de embalar marujo


Do teu beijo laranja
Eu bati, fiz suco e tomei
Virou suplemento pr'eu correr com o sol
Guardei minhas sandálias na mala
Junto com a memória
Do sabor da tua pele pistache
Dos teus olhos, floresta negra
Do lambuzar e te comer doce que nem chocolate
Ainda é saboroso sorver da tua língua meu gozo
Repara bem na cor do gosto do meu poema
Que te acena da distância entre a terra e o mar
- Capitã, é hora de zarpar!
Navegar meu tempo de poder da vida salivar
Igual todo amor de marinheiro
Deixo a onda levar e o pensamento vagar
Se já vôo ou se edifico já
Mas logo eu fico beira mar
Deixando a água passar
Pra no meu juízo inundar
Te dou um barco e vou a nadar
Meu amor fica do teu lado
Só que meu amor à vida é maior e melhor aliado
Não é um tipo de pecado
Eu já tô com a língua seca de tanto falar
Vou pra rua beber da chuva pra depois desaguar no mar
Desejar viver a galope, não é traição
Mas se a liberdade for minha perdição, eu te juro, amor
Te escrevo de um banco qualquer de alguma praça Sra. Conceição
Te prometendo de volta todo meu coração.
Contando que me perdi do mapa que tatuou no meu peito
E que as garrafas com minhas cartas de amor
Quebraram nas costas do oceano
Com o balanço raivoso da maré contra as pedras
De volta pra casa, eu estiro a vela e a saudade estica
É que igual todo marinheiro
Eu deixo a onda do mar me levar
Até o vento apontar em qual cais atracar.




23 outubro, 2018

Maranhense feminina, muito fêmea, sim senhor

Por que nem Tarja Preta 
Nem Mulher Elétrica
Conseguem cantar
E conter o seu poder de fogo de mulher

Ela é doida, é o que os cabra fala
Mas nunca leva em consideração
Anda com um facão na mão
Ta sempre cheia de munição

Ela é do agreste, do arengar
Não tem tempo ruim pra trabalhar
Ela é atriz, formou em Imperatriz
Veio de Cratos, mira e arremessa pratos

Cria de Ceilândia 
Desafia nativo em São Sebastião
Caça confusão no calçadão da Barra
Nela ninguém põe laço
Ela é a rainha do cangaço 

Cobra criada, caninana perversa, diz seu pai
Maria Bonita de seu Bezerra
É a louca e barraqueira, 
Puxou a Dalvina, Evinha e a Denice, toda a estirpe

Num alisa e tudo vigia
Mesmo distante, no passo traz Codó amarrado no calcanhar 
Cabrueira, não anda só, no sangue tem mar de doze
Na linha por trás tem mistura de preto, cigano e índio de kalancó

Ela é Rainha do pedaço
Dona do espaço
E entorna o caldo 
Se pisarem no seu calo

Ela grita e atira, corre na força da gira
É do babado, do batuque, do auê
Tem corpo fechado
E a fama de por cabra safado no paredão 
Pra lhe capar os culhão

Ela é Rainha
De sangue vermelho e quente
Carrega a marca de seu povo
Cruza seus braços na fé
E sabe a quem ter compaixão

...


Para as mulheres da minha família, que são mais macho que muito homem.

#EleNão porque se for #EleSim vocês se foderão na nossa mão!






19 outubro, 2018

Passageiro


Ele me advinha os desejos
Cobre minhas nádegas de beijos
Sabe dos caminhos da minha terra
Faz da minha barriga abrigo
Se esconde nas trilhas que ninguém explica
Corta minha mata fechada
Me cava, cava, cava fundo
Até me transportar pra outro mundo

Na passagem, passageiro se perdeu
E outro homem me apareceu
Este adestra cavalos de maneira que não ensina
Rasga minha selva por novos caminhos
Cospe fogo, derrama sua cachaça em mim
Prende minha boca,
Me cela e espora minha costela

Ele no cuidar do meu corpo 
Me mostra por onde sua boca andou
Viajante, protetor de todos os seios em seu caminho
Ele sabe dos segredos
Dos mistérios que não se revelam
Entre minhas pernas,
Descobre toda vez o escorrer do aguaceiro potável de beber
Dos meus rios e braços,
Tira seu cansaço com meus abraços

O outro, me leva pro curral
Na palha tenta me incendiar
Pede para com ele eu me deitar
E diz ver deus ao me observar no chão a rolar
Mas não me advinha os desejos
E insiste em mim montar
Este domina tudo,
Só não meu asco.

Em meio ser-tão
Pelos pés do viajante,
Caminhando vou
Caminho sou
O aguaceiro brota da terra
O solo com sol se abre
Dentro de mim sua semente me cabe
Dá rachadura tudo em mim escapa
Bate o vento, meu corpo é templo
E da religião que inventamos
Sigo caminhando
E à tua prece, continuo rogando.


18 outubro, 2018

bem querer, querer bem


terra e céu
vento a soprar
peixinho no ar
passarinho no mar


Haikai Ar Cai

Ar que cai
É envelhecer da gente
Cheio de tanto respirar


Olímpia não apagou o café

O relógio de Isaías tudo varria e na curteza das semanas iam os dias. Não havia alegria, Isaías já não mais sorria e o relógio insistia, tudo se perdia. Na vida curta de Isaías tudo repetia. E o relógio insistia e tudo ele varria. A teimosia de Isaías persistia ao ainda querer saber por onde Olímpia ia.


Láraláiá teu olhar

Me deixa ver de perto
Subjetivo teu olhar pro teto
Tua parede de céu estrelado
Disfarça que não tá vendo
O meu espiar desconfiado
De querer sacar a cor dos teus olhos
Por de trás das lentes escuras
Me deixa ver de perto
Teu esquivo de olhos grandes
E sempre distantes
Me deixa ver de perto
Esses teus olhos sempre estanques
De quem só sabe guardar a vida em estante.

17 outubro, 2018

Canção de travesseiro

Já faz um bom tempo que não canto Samba Em Prelúdio
Percebi que não preciso cantar mais essa dor.
Foi assim, lá nos trópicos
Enquanto pensava com psicotrópicos
Que eu entendi que eu também sou você
Sou igual a todo mundo,
Sou melhor sem você.
Eu sem você, sou só amor
E prefiro cantar outra dor.
Só que durante a madrugada um novo som me pegou,
Ou melhor, a vida novamente me mostrou
E cantando, deu vontade...
Eu queria poder compartilhar... com você.
Mas não farei por hora, por acreditar que tempo há de ter
Se não há de ser agora, talvez seja em época de amora
O que não é pra já, talvez seja mão de Jah
Se não somos nesse planeta, talvez sejamos em Plutão, pelo menos eu faço ser com caneta.
É que passou um furacão e eu vi
Que sou igual a você.
Você e todo mundo só querem alguém
E tudo, tudo, tudo se repete
E eu... eu, tenho tudo no peito que derrete
Só que ultimamente
Só sei chover canivete.