15 junho, 2012

Sobejo

Mesmo sol, mesmo lugar, nada novo, nada estranho, as mesmas expressões, os mesmos gestos... E de repente num piscar de olhos algo incomum, tudo estranho, tudo mudado... Ela sabia que aquela chama posta ao peito logo se apagaria, ela sabia que um dia as palavras iriam lhe faltar, e mesmo que quisesse falar só conseguia balbuciar.  Prendeu dentro da boca sua língua, guardou dentro de si uma enorme vontade de gritar. Trancada no absoluto de si; cega, muda, surda e estropiada. Só restavam-lhe pequenos absurdos; uma imagem congelada no retrato, sua intimidade com o silêncio, o chorar de esperar o amanhecer e alguns crimes... Restava-lhe a loucura, a personificação da deselegância, as reticências e o compasso rítmico de um amor ao avesso. E por fim, com um gracioso "finalmente" restava-lhe a si própria.

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