03 julho, 2014

Disse o Poeta


Eu vivo isso, eu vivo de tragédias para escrever. Eu vivo disso... Disse o poeta sorrindo...



02 julho, 2014

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Se fosse filme, ele estaria bebendo em um quarto vermelho de motel barato, antes de fazer sexo com seu novo amor, pois ela estaria tomando banho de ducha, enquanto isso seu telefone toca por volta de 3a.m. Ele não costumava atender ligações de nenhum tipo, principalmente com números desconhecidos, ele olha fixamente para o celular vibrando e por algum motivo resolve atender. Ele da um gole em sua bebida e diz: ''- Alô”! ''... 
Do outro lado da linha ele consegue ouvir um soluço choroso, aquele que ele conhecia bem... Era ela! Engasgando ela consegue responder um "oi" com risos e com algumas fungadas de tanto chorar. Ela estava na rodoviária, esperando o próximo ônibus com rumo a qualquer destino.
 Já desimpedida ela pede para que ele não desligue o telefone e começa a falar interruptamente: ’’ - É tão estranho eu ter que fingir que esqueci, mais estranho ainda viver como se nós não tivéssemos acontecido. É doloroso querer dizer "oi" e ser imediatamente impedida por uma condição que nós estipulamos. Nós, éramos só nós... Se eu te falar que não foi uma mentira, mas que sorrateiramente meu sentimento transformou-se em amor? Mas um amor que não supre como você precisa, com desejos da pele, do toque, do beijo... Não posso mais te dar meu corpo, assim como não quero mais o seu. Eu só queria ter de você todo dia um abraço e um "oi", a quem mais maltrataria, eu não sei... Egoísmo meu, tolice, medo... Sim, medo de te perder. Eu nunca entendi muito bem esses termos do início, meio e fim. Continuo achando essa barreira muito ridícula, não existe isso na minha poesia, na minha dança, no meu mundo. Vai me dizer que você não sabia disso? Você percorreu por todos meus caminhos, minhas trilhas, e vai me dizer que não sabia?... ‘’ 
Ele tenta interromper e diz com certo espanto: ‘’- você está nitidamente fragilizada". Ela rebate: ‘’- Sim, eu estou, pois não te quero mais como no início, com a fúria e com o calor do desejo, isso me fere, me sinto indigna. Mas ainda sim, eu te quero. Quero poder ser seu consolo e que você seja o meu. Quero poder te abraçar e falar que estou aqui, quero rir de todas a bobagens que já choramos... Meu Deus, eu só quero voltar a sorrir com você. Mas você me disse que preciso escolher... Escolher o que? Eu já te escolhi há muito tempo, você é meu e eu sou sua. Você é meu alívio, minha paz, meu amor, desculpa, mas você é meu amigo, meu anjo, meu salvador... Sabe daquela paixão que eu te falei? Ele começou a gostar de mim, sabe o que eu fiz? Fui embora... Talvez seja sina, meu bem. Não é você, não é ninguém. Talvez seja o que eu saiba fazer melhor, ir embora. Quando vou conseguir parar, quando vou ter estabilidade... Me pergunto em algumas noites vazias. Mas há uma força, um desejo quase involuntário de ir embora, ou de passar por cima de tudo, sem me importar muito a quem estou machucando dessa vez... Acho que não sou e nunca vou conseguir ser a mulher que você esperava. Espero que um dia você me perdoe, eu espero que um dia você venha me visitar com a intenção apenas de me abraçar e de sorrir muito. Eu preciso correr agora, de novo e de novo, não é que eu esteja fugindo, mas é que eu preciso ir embora. É que eu nunca disse antes, mas eu te amo!"
 Ela fica muda, e o silêncio dele já perdurava minutos. Quando ele enfim fala, apenas diz que precisa desligar o telefone e desliga sem muita cerimônia. Sentado em uma cama redonda, com o copo na mão, seu celular em outra, de cabeça baixa, fala baixinho: "- eu também te amo, meu amor". 
Sua nova "pequena" sai do banho, ele bebe toda sua dor naquele último gole, levanta sua cabeça, vê sua nova garota, deixa tudo para lá e vai terminar sua noite naquele quarto vermelho de um motel barato. Depois daquilo já não se sabe o que aconteceu, ninguém mais pagaria pra ver, era só mais um drama, outro filme de bilheteria baixa, que é passado no pior horário dos cinemas falidos. Na sala de cinema, provavelmente só haveria um casal, sentados separadamente, um em cada ponta. Esperando ali, talvez, que os personagens um dia pudessem cruzar pelos mesmos caminhos. Que enfim, com um final feliz, ela receba todo dia só um singelo abraço e um ‘’oi’’ do seu eterno amor.