22 dezembro, 2014






02 dezembro, 2014

Trecho de uma Colecionadora



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Além de bilocas, cartas, selos, folhas e coisas antigas, Dolores colecionava mágoas...
Dolores nunca soube dizer a ninguém como era aquilo, mas sabia bem qual era a sensação; fogo e queimadura eram o que mais se assemelhava.
Ela sentia um constante calor; mistura de euforia, raiva e dor. Sua pele queimava, mas ela já era acostumada com as chamas e feridas que não cicatrizavam.
Dolores exteriorizava suas dores, as colocava em potes numa estante em uma parede escura. Em sua coleção de mágoas havia parte de sua vida, cada pote; uma mágoa, uma parte de Dolores. Tinha a maior coleção de todas, havia ela se esvaziado e se diminuído em potes, chegando ao ápice supremo de suas dores, já não sentia nada. E como haveria de sentir, se tudo de bom ou ruim estava velado, lacrado e empoeirado em potes.
Pobre Dolores, nunca chegou a mostrar essa coleção a ninguém... Tinha orgulho de suas outras coleções, mas quem chegasse perto, sabia que algo de obscuro ela guardava...
Dizem que um dia existiu alguém nela, hoje não há ninguém. Dolores se resume a nada, não se sabe ao certo se ela drenou o que existia, ou se fora bruscamente drenada, tirando seu sangue e sua vida... Lhe sobra sua penosa coleção, para limpar e enfileirar. Furiosa e sensível, morta para os vivos, viva só de pulsão, fastiada e vazia. Dolores talvez ainda tivera o que não pôde colecionar, e...

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